Foi um bocado ressabiada que encontrei Perséfone. Que mulher é essa, tão silenciosa e delicada, educada por Atena e Artemis, protegida por sua mãe Deméter e amada pelo pai Zeus, que no entanto habita as profundezas do inferno, em tão harmonioso matrimônio com ninguém menos que o temido Hades? Com que tipo de força essa rainha se impôs nos dominios do marido, instituindo novas leis (como por exemplo, o direito de voltar á terra num novo corpo), e destruindo a inércia da eterna primavera nos reinos da poderosa Deméter? Como aquela delicada compleição pode emergir tão completa e plena de uma mudança tão brusca e inesperada? Olhando a pequena Kore a correr pela eterna primavera mantida por sua mãe, sem consciência de seu corpo e de sua feminilidade, inocente de seu poder de sedução, e depois, vendo-a emergir mulher conhecedora de seus prazeres, até me lembrei um pouco de outra personagem mitológica: Eva, e sua maçã. Primeiro, sem roupas (identidade) no primaveril paraíso. Depois, plena de vida, aprendendo a gerá-la em seu corpo e a contar o tempo pelo seus ciclos. Parece estar em nossa natureza degustar as frutas mais gostosas, respondendo á nossa vontade e não a de outrem.
Diante de Perséfone, que me fita com aqueles olhos que conhecem os caminhos da transição, muitas perguntas me ocorreram. O que foi aquele grito? Do que teve medo naquele momento, quando a terra se abriu? Do desconhecido, do homem que surgia do mundo que existia escondido sob os conhecidos domínios da Mãe? Do próprio corpo, refletido nos olhos cheios de desejo dele e respondendo ao toque? E, por todos os deuses, será possível que aceitou aquela romã tão ingenuamente quanto Eva aceitou a maçã que a serpente oferecia? Mas não proferi nem uma palavra, pois ela agora me fitava com um sorrizinho no canto da boca, um olhar meio moleque, agora eu podia ver Kore brincando com narcisos, a curiosidade infantil direcionada pelos processos que já ocorriam no âmago do corpo. Mas por quê o silêncio? Por quê o mito a representa tão submissa, jogada de um lado pra outro pela vontade dos outros? Alguns insistem que ela é dominada... Ela levanta uma sobrancelha; Será? Fico na dúvida. Afinal, que tipo de feminino poderia levar o amor ao homem que habita o obscuro submundo, amar o temido senhor da morte, se ambientar tão bem por lá, administrar o ir e vir constante, e ainda interceder no julgamento frio e imparcial da morte? Mas agora ela virá olhar as sementes...
E, mais uma vez, emerge. Emerge do mundo subterrâneo, emerge de onde é rainha e mulher, emerge do amor e vem florescer. Entre as flores, aos olhos da terra, será sempre menina, sempre Kore... mas apenas aos olhos da Mãe, pois dentro de si, irremediavelmente, o fruto de conhecer o amor e a sombra, a luz e a sombra, a imagem refletida nos olhos do sombrio.
Perséfone emerge do submundo, é Primavera. Guardiã dos misterios dos ciclos femininos de morte, e renascimento, do segredo que a semente guarda sob a terra até o momento de amadurecer e florescer, de se abrir e ser e encontrar sua identidade e nome e está em cada passagem feminina. A cada semente que se abre e se rompe na escuridão silenciosa do interior da terra para que sua identidade brote e floresça nos campos de Demeter, lá está Persefone, Senhora do Mundo Subterrâneo, abrindo docemente o caminho, para que nasça, e recbendo em silêncio a semente que retorna, guardando-a em seu silêncio, para que o ciclo se complete.
No inverno retornará, presença feminina no submundo das trasformações e sombras, no misterioso mundo da morte, transitando, conduzindo, conciliando, menina e mulher, trazendo do inconsciente pro consciente, trazendo do instintivo pro consciente, descortinando.
Encontrar Perséfone não é fácil. Emergir do subterrâneo é um desafio. Encarar a sombra e encontrar identidade é tarefa árdua, exige tentativa e erro, exige abdicação, exige algum sacrifício. Toda mulher o sabe. Deixar de ser menina pra ser mulher, passagem sempre lembrada com o próprio sangue; deixar de ser protegida pra se proteger, deixar-se ser cuidada enquanto cuida, sutil força passiva que faz com que o ciclo se complete, que faz com que aconteça, e que retorna á sombra silenciosa sem alarde, sem protesto, naturalmente. Pois há que se conhecer a sombra para que o brilho da luz seja pleno de festa, alegria e esperança. Porque antes de nascer, somos semente no ventre da terra. Ela ainda me lança um olhar de quem entende.
É claro que o Sol vai voltar amanhã!....