Alessandra's posts with tag: bruxaria
E há uma ventania doida levando o Inverno e fazendo a Roda girar. Hora de içar as velas, navegar, movimentar... Não é mais Inverno, e ainda não é Primavera. Deixo o vento ventar nesse entremeio de tempo e começo a considerar pra que direção vou direcionar o leme.
 E se quiser saber pra onde vou... pra onde tenha Sol! É pra lá que eu vou!
Fiquei meio assustada com as imagens aterradoras que esse inverno me mostrou. Coisas de mim mesma que eu não gostei nem um pouco. Verdades incômodas, inconvenientes, coisas que eu não aceitaria ouvir de terceiros. Mas tive que ouvir de mim mesma. Mas ao contrário do que eu teria previsto, o desconforto da situação não me atirou ao fundo do poço nem piorou a eterna melancolia. Não me lançou ao traiçoeiro jogo de culpa e auto-piedade, nem de auto-punição. Apesar de me chatear um pouco (claro que eu queria ser mais e melhor), acabou mesmo descortinando minha visão, de maneira que pude enxergar com a limpidez das luzes do sol de inverno. Daí tudo começou a fluir com mais naturalidade, e na última Lua Cheia eu me deparei com meu altar repleto de plantas cheirosas, de tempêros, de folhas. Mesmo que o intelecto lançasse um olhar crítico, meu coração ficou muito feliz ao se desembaraçar dos conceitos complexos, teóricos, sofisticados, e celebrar com o perfume do alecrim e do manjericão, a imagem da Deusa estampada nas agulhinhas macias do funcho, ou nas folhinhas cheirosas e a delicadeza do poejo. Simples demais pras minhas expectativas moldadas em imagens majestosas de mantos esvoaçantes, coroas de luz, auras cintilantes... O que posso dizer? Nem senti vontade de me justificar. Nem precisei. Até mesmo a teimosia da mente sabia que Ela estava ali. E que sorria. Mal posso esperar a Lua Nova.
 A ritualística tem seu lugar, mas nada como o descortinar do cotidiano. Pensando nisso, ia eu a esmo, beira mar, reparando que quem assopra nos meus ouvidos nasce lá na patagônia, passa pelo sul como minuano, e cá está, me enchendo de vontade de chegar em casa, com o nome de vento sul. Ao meu lado, a velha amiga castanheira da praia, exibe sem nenhum complexo tupiniquim, as folhas já avermelhando, amarelando, amarronzando, ou seja: é outono! No meu ritual cotidiano de caminhar, sol morno na moleira, vento frio e salgado no cabelo, percebo agora, no meu mundo interior, a chegada do outono. Tudo bem, datas marcadas não são mesmo o meu forte - sou uraniana, o que posso fazer? O ritual de outono inclui café quentinho com pão de queijo, coisa desconfortável em tempos de calor de verão. Inclui filme da sessão coruja debaixo da coberta, ouvindo o vento sul assobiar, por enquanto ameno - no inverno ele vai ficar mais incisivo, exigir talvez um cobertor na madrugada. E inclui também, é claro, um certo distanciamento da agitação do mundão. É tempo de amadurecer, e eu sempre me pego comigo mesma, a cismar um não sei o quê de interiorização. Não sei o quê parece refletir o quê, mas fato é que eu também flagro a chuva fininha a cair, quando olho pra janela, assim do nada, e quando dou por mim ela não está mais lá - tem Sol brilhando e tudo. O Outono é de Marte esse ano, e isso é visível; quase posso ouvir, como o ruído que fazem as raízes no fundo da terra. Marte exige movimento, o outono exige interiorização, e me dou conta de que certas sementes TÊM que brotar, impreterivelmente, e de maneira permanente, terminando o lento trabalho de saturno no ano passado. Marte pede (de maneira bastante convincente rs): Trazer o céu pra terra, ou o inferno - vai depender do que cada um vai fazer. Mas faça - DO IT - pois é tempo de colocar projetos em prática, velhos ou novos, não importa se o outono e o inverno que o suceder nos convidem á reflexão. Hum, isso pode dar uma alquimia boa - reflexão e ação - é só saber dosar. Os astros abençoam - e originalidade á parte - o momento é propício. O vento sul traz uma folha bem vermelha pra dançar na minha frente, fazendo um redemoinho. Minha amiga castanheira está mais avermelhada por causa do pôr do sol. Por um segundo, pensei estar no meu saudoso bosque. Pois nem tive dúvidas: passei a mão na folha (de um vermelho lindo!) e lá está ela, abençoando meu altar.
Quando trabalhava em Vitória, tive um colega que realmente me ensinou muitas coisas sobre magia, sem ter nenhuma idéia disso. Quando me referia a ele, em casa, eu o chamava de "o último biscoito do pacote". Logo de manhã, a gente chegava e dizia: "Bom dia! Tudo bom?" (Era obviamente uma pergunta retórica, não necessitando de uma resposta completa). Mas ele respondia "É, né, vamos levando". E começava a desfiar o rosário de lamentações. Incrivelmente, tudo acontecia com aquela infeliz criatura. Teve depressão. Perdia dinheiro. Sofria traições de colegas de trabalho, amigos e namorados (é homossexual). Tinha sucessivas doenças, viroses, um horror. Acabei ficando curiosa. Pensava: "que merda é essa, gente!". E resolvi olhar mais de perto. De cara, uma série de coisas lógicas: cristão, homossexual, de família tradicional lá na cidade dele, trabalhando numa empresa que chega a ser tosca com relação a isso. Culpa, óbvio. Normal. E depois, mais ainda: o "complexo de bonzinho". Ajudava todo mundo, colocava os outros em primeiro plano, em detrimento de si mesmo, abria mão das coisas pra ajudar o próximo. Só faltava andar com um chicotinho pra auto-martírio. Á primeira vista, nossa, quanta virtude. Mas depois a gente percebe uma certa arrogância. Afinal, todos precisavam da ajuda DELE. Não conseguiriam se não fosse ELE. PRECISAVAM que ELE estivesse ali, ou não saberiam o que fazer. Senti, nas conversas que começamos a ter, um certo vampirismo nesse sentido. A energia dele ia rodeando a nossa, parecia ter tentáculos, enquanto ele oferecia ajuda, tão generoso. Depois começava a parte dois: ele ia contando como sofria, mas que sofria calado, que passava tudo que é desgraça, mas firme, sozinho, não queria sobrecarregar ninguém, afinal. Ô dó. Se eu sentisse um tiquinho de pena, lá ia ele tomar de canudinho. O resultado natural dessa equação, eu logo entendi. A culpa inconsciente junto com a arrogância (tipo, faço tudo de bom e o mundo não me dá nada), gerava a energia vampírica (a ajuda não é desinteressada, exige uma atenção emocional em troca, quase que exclusiva), e aí essa sintonia atraía as respostas desfavoráveis (os roubos, a perda de dinheiro) ao mesmo tempo que atraía pessoas de índole também interesseira. Ou estudiosas da natureza humana XD. E, de quebra, afastava pessoas de bom astral, que instintivamente sentiam ali o perigo dos "tentáculos do pobre coitado". Ele costumava dizer: "Meu problema é que não tenho amigos". Não fiquei com pena. Aquele conceito de amizade, quem queria? Dei umas dicas, na medida do possível, que ele não entendeu. Achava que não precisava mudar em nada, o mundo é que tava todo errado, as pessoas é que eram cruéis e mesquinhas, mas que ele redimiria a tudo isso com suas boas ações (hã???). Acabamos nos afastando, ele me achava muito insensível e egoísta. Mas eu aprendi com ele. Aprendi como ás vezes a gente trabalha contra a gente mesmo. Observei na prática como nada é de graça, e que magia que vai sempre tem um custo pra quem a mantém. Aprendi que amor ao próximo está diretamente ligado ao amor que cada um tem por si mesmo. E que não é preciso ser mago ou bruxo pra fazer magias e maldições...
Li os quatro livros com o maravilhoso conto da Marion Zimmer sobre a saga das mulheres, participantes ativas dos bastidores da história do rei Arthur. Eu tinha na época 12 ou 13 anos (não faz tanto tempo assim viu?), amei a história, que reli várias vezes... Mais ou menos na mesma época, tive a sorte de encontrar na estante da casa da minha avó os quatro imensos volumes de "O Tempo e o Vento", de Érico Veríssimo, que li avidamente. Apaixonante a saga da família Terra, iniciada quase que magicamente aqui mesmo em terras tupiniquins pela paixão de Ana e Pedro Missioneiro, um índio meio mestiço, com sotaque espanhol, remanescente das missões jesuítas das fronteiras do sul do Brasil, destruídas pelos "civilizados". Reli essa história fantástica algumas vezes, acompanhando as gerações que se sucediam e participavam silenciosa mas ativamente da construção do país. Fim de semana desses, os dias chuvosos me deram a idéia de assistir as duas sagas que tanto me encantaram, reproduzidas em filmes. Claro que não é a mesma coisa - os livros são muito mais ricos em detalhes e mais plenos de sentido. Assisti os dois cds de Brumas de Avalon... e depois os dois cds de "O Tempo e o Vento" produzidos pela Globo (pra alguma coisa tinha que servir, né). Ah... mas a história de Ana Terra, com trilha sonora de Tom Jobim, com os descampados e caminhos do Sul, me emocionaram muito mais... me lembrei de outras leituras que me comoveram bastante, como "Memorial de Maria Moura", "A Muralha", "A Casa das Sete Mulheres", "Grande Sertão Veredas".... pra quando não se está a fim de ler, as produções são encontradas em boas locadoras... e me dei conta de que essas histórias, de amor, de guerra, de coragem, de lutas e mortes, de tradições e costumes, estão repletas de magia, sim, quem vai dizer que não? Quando Pedro Missioneiro diz a Ana: "Agora sei porque vim, pra semear seu ventre"... e prevê a própria morte... e as gerações que virão... e quando Manuela vê seu futuro amor nas águas... e prevê que não ficará com ele... ou quando Anita cavalga noite adentro, em meio á guerra, com seu bebê no colo, pra salvar sua vida... e a coragem de Diadorim... e suas reflexões sobre a vida e sobre Deus.... e Maria Moura, a guerreira vencida pelo próprio coração, preferindo morrer a viver sem amor.... lindas histórias nas bases do Brasil, história de gente mestiça, religiosos "crstãos" com hábitos pagãos europeus, índios, negros... hábitos pagãos impregnados na própria terra... com olhos bem aberto, ouvidos atentos, quantos feitiços aprendi com aquelas personagens, que teciam em suas rocas, que cultivavam em seus campos... como esquecer de Isabel, em "A Muralha", meio mulher meio bicho? Impagáveis as decisões de Ana Terra: "Os homens tem os punhais, mas as mulheres tem as tesouras de cortar umbigos... vou trazer crianças pro mundo, isso eu vou! Vou ajudar a povoar esse continente, isso eu vou!"... tesoura e roca na bagagem, ela recomeça a vida.... Tenho grande admiração pelas tradições européis, principalmente as culturas latinas. Mas quando vi o médico germânico de "O Tempo e o Vento" visitar as ruínas das missões espanholas, explicando sobre a civilidade e beleza daquelas comunidades, comparando-as até mesmo á cultura grega no tocante ao desenvolvimento das artes, da política... tão pouco sabemos sobre nossa história!... e as histórias que correm sob a poeira da história oficial!... E os hábitos que herdamos desses povos, e as famílias que se originaram dessas sagas!... Ah, Viviane, Morgana, me desculpem, amo vocês... mas sou muito mais Ana Terra!
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