Alessandra "Raven"

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Blog EntryBeltane e FinadosNov 1, '07 8:51 PM
for everyone

...e minha mãe veio me perguntar o que faríamos nesse dia de Finados. "eu vou tomar um vinho", pensei, mas não falei nada. Então ela teve a idéia de irmos a uma igrejinha, numa missa dessas públicas que tem em finados (ela raramente vai a missas) e levar a lista de nomes dos falecidos (99,9% cristãos, e católicos) numa homenagem póstuma. Minha irmã logo deu o grito "eu não vou, não gosto, não acredito, quero que se exploda", com a "suavidade" que lhe é peculiar. "Então eu vou sozinha", disse minha mãe. Embora não frequente missas nem seja católica, ela acha essencial. Acha que ajudará aos que estão "do outro lado". Fiquei calada pensando em tudo isso, e no Beltane que resolvi adiar pra domingo por razões óbvias.

Sempre que um parente ou amigo ou pessoa querida de um pagão morre, tem aquela frase: "você é pagão, sabe como são as coisas...", como se o fato de ser pagão imante a pessoa do poder de não sentir a dor. E, depois de algum tempo, aquela dor ainda dói, e o pagão repete pra si mesmo como um mantra que "está tudo bem, sei que fulano está bem"...

Acho que isso é uma puta hipocrisia, com perdão da má palavra. O próprio conceito de morte está intimamente conectado, ainda que erroneamente, com o conceito de "perder alguém". PERDER. A gente nem percebe, mas é assim que se refere ao acontecido: "fulano perdeu a mãe, ou o pai, ou um filho, ou um amigo". E por mais que a cabeça entenda que não se perdeu a pessoa, que ela está lá, no "acampamento do outro lado", continuando sua caminhada, vai explicar isso ao coração. Dói, e dói mesmo, e há que se colocar luto, chorar, ficar deprimido, ou "arrancar os cabelos e bater no peito " á maneira grega, e mais: não vai passar tão depressa.

É o conceito ocidental da morte. Ele está entranhado na nossa cultura por centenas e centenas de anos, numa poderosa egrégora que toca diretamente nossos sentimentos e emoções. Fatalmente haverá luto, se não na hora, algum tempo depois. Alguns se sentirão sem chão, alguns ficarão indignados, como se os deuses houvessem lhe tirado algo por puro capricho, e dificilmente, quando imersos nessa dor, convenceremos nosso coração de que esse é um movimento natural da vida, que pra morrer basta estar vivo.

Mas é. É um movimento natural da vida. E creio que o problema não é a morte, e sim a maneira como lidamos com a dor a acompanha. A morte de outras pessoas não nos choca tanto quanto a morte de alguém próximo. E então?

Tendo em suas fundações conceitos universais roubados só pra si, a Igreja Católica tem alguns hábitos "interessantes" a esse respeito. Por exemplo, a missa de sétimo dia. E depois dela vem outras: de 30 dias, de um ano, de aniversário em vida. Tudo isso acompanhado de uma série de dolorosos rituais: choros, velas... quem nunca ouviu falar das carpideiras, aquelas que "encomendavam a alma" do morto, e hoje ganham a vida chorando no velório alheio?

Como a instituição católica nunca criou nada, só roubou e adaptou aos seus interesses, sobretudo no Brasil, fiquei incucada com a coisa, e cheguei á conclusão que é a seguinte: não podemos continuar negando a nossa dor, a nossa saudade, quando alguém se vai; nem podemos ser arrogantes de ignorar a egrégora em ação no dia de Finados (vamos combinar, é muita gente chorando os mortos!); Nos isolar da energia ao redor pra fazer um ritual alegre como Beltane na base do "eu sozinho futebol clube", ignorando familiares que estão lembrando de seus mortos é meio incoerente pra quem prega a ancestralidade... mas também não podemos ficar, como muitos ficam, com uma ferida aberta, de mágoa e ressentimento por não ter mais a companhia física da pessoa, ou então achar que, como dizia vovó, "morreu virou santo"... O Samhain não tem essa função; Ali, honramos nossos mortos, não choramos por eles. O que fazer?

Vamos encarar que dói. Vamos chorar por uns dias. E depois, segue o bonde. E de vez em quando, em dias próprios (aniversário de morte, por exemplo), vamos nos retirar, ficar só com a gente, e abrir essa "caixinha" de sentimentos, e ver como anda essa dor. Sem pré julgamentos, sem pré conceitos, vamos nos permitir, ao menos nesse dia que escolhermos, sentir o que estamos sentindo. Depois, vamos analisando com carinho, conversando com o coração. Mas não vamos negar, por sermos pagãos, a dor que a morte trás. Respeitemos.

Sei que não podemos simplesmente acabar com a força depressiva que acompanha a egrégora da morte. Mas podemos modificá-la...

A propósito, me prontifiquei a acompanhar minha mãe na sua jornada solitária á "missa dos mortos", na capelinha do cemitério. Não tenho coragem de deixar um parente ir sozinho. Quando ela se mudar para o outro lado, lembrarei que não a deixei ir sozinha e incauta aos lugares inóspitos...

E o Beltane adiado? Os deuses entenderão... hehehehe....


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